terça-feira, julho 29, 2025

Psicopedagogia: uma teoria, diferentes estilos

O trabalho/reflexão de Edith Rubinstein é uma tentativa de contribuir para a continua e necessária discussão sobre a práxis psicopedagógica. 1. - Como definir e caracterizar um trabalho psicopedagógico dinâmico, levando em consideração o processo ensino/aprendizagem? A intervenção psicopedagógica focaliza o sujeito na sua relação com a aprendizagem, e a opção por uma intervenção que ultrapasse a reeducação concede a esta um dinamismo. Dinamismo entendido como flexibilidade em contraponto ao predeterminismo e à rigidez. 1.1 - Dinamismo na escolha de procedimentos e nas propostas. A caracterização de dinâmico justifica-se pelo fato de a intervenção não partir de algo predeterminado, de “modelos”, uma vez que a proposta de trabalho para mediar a relação terapêutica depende da particularidade de cada situação, do sujeito atendido. Não será um determinado método que desencadeará mudanças de ordem relacional ou nos esquemas de ação. O caráter dinâmico de escolha das propostas e a forma como são significados pela dupla terapeuta/cliente são o que realmente provocarão as mudanças pretendidas. Cada pessoa atendida possui necessidades específicas, características individuais, e, ao terapeuta, cabe fazer as opções interativas que se adaptem melhor às necessidades de cliente/aprendiz. 1.2 - Dinamismo no processo. O dinamismo dessa intervenção está voltado ao processo de construção de modificações internas, que nem sempre manifestam-se imediatamente após as experiências vividas. Muitas vezes, elas custam a aprender e aí devem-se investigar as resistências ou dificuldades específicas. O processo de modificações, conceitual, de objetividade e da subjetividade, tem a ver com a posição em que o sujeito se coloca diante da realidade interna e externa. Aprender é raciocinar como desejar aprender, pois o desejo será a mola propulsora do interesse pelo conhecimento. Durante o processo interventivo observa-se que muitas vezes a escolha de uma proposta por parte do aprendiz tem um sentido que o afeta particularmente, promovendo sua implicação, sendo possível, por meio dela, alcançar os objetivos do tratamento, para o processo de mudança. Para que o aprendiz construa-se conceitualmente, é necessário que ela saiba estabelecer relações entre os diferentes saberes, e é à esta capacidade de fazer relações que se atribui a concretude do instrumento cognitivo. Quando o aprendiz adquire consciência metacognitiva, isto é, compreensão de seus processos cognitivos, há maiores possibilidades de aprender de maneira mais autônoma e significativa. 1.3 - Dinamismo no Ritmo. O processo envolve o ritmo, com isso surgem etapas na intervenção em que as mudanças são visíveis, e outras em que elas não aparecem. O psicopedagogo deve buscar e investigar, na relação transferencial, o que pode estar determinando e influindo no processo de mudança, tanto conceitual (cognitiva), como relacional (subjetiva). Participar de experiências nas quais o ritmo próprio é respeitado, promoverá, por si só, um conforto ao aprendiz e certamente beneficiará seu processo de mudança. Isso significa uma aceitação passiva por parte do terapeuta, mas sensibilidade para perceber os mínimos movimentos de mudança e, a partir deles, provocar desequilíbrios por meio de questionamentos, que poderão (ou não), contribuir para a construção de novos esquemas. Por isso, será fundamental, ao psicopedagogo, em parceria, com seu cliente, construir os seguintes saberes: “como vou desenvolvendo” (por parte do cliente), “como vou conduzindo o trabalho” (por parte do terapeuta). À medida que o trabalho vai sendo conduzido, as resistências poderão ir provocando aproximações em relação às possíveis causas responsáveis pela dificuldade de aprendizagem. 2. - Quais são os riscos de uma intervenção unicamente voltada para os aspectos pedagógicos? Como os aspectos pedagógicos e/ou dinâmicos devem ser abordados na clínica psicopedagógica? A intervenção muita presa aos aspectos essencialmente pedagógicos corre risco de apenas contemplar a necessidade do terapeuta, deixando de atender as necessidades específicas do ´paciente e que o fizeram fracassar. A abordagem que leva em consideração as relações entre os envolvidos na ação terapêutica não invalida intervenções apoiadas em ações/vivências de natureza pedagógica, mas pode utilizá-la como recurso mediador, para ampliar leituras a respeito da modalidade de aprender do cliente ou refletir sobre o sentido de determinado conteúdo. Embora a psicopedagogia relacione-se também com os aspectos educacionais e pedagógicos, a intervenção psicopedagógica pretende despertar o desejo de aprender, o qual, uma vez construído, será o motor que promoverá o desenvolvimento. 3. - Quais São os riscos de uma intervenção unicamente voltada para aspectos da subjetividade? Como foi dito anteriormente, o psicopedagogo foi buscar na Psicologia e na Psicanálise recursos para compreender melhor os problemas de aprendizagem. Aspectos voltados para a subjetividade (exclusivamente) pode proporcionar uma leitura de riscos, dentre os quais: Risco de não promover o desenvolvimento de aspectos cognitivos que ficaram para trás, até por falta de seu uso; Risco de distanciar-se de objetivos que levem em consideração o processo de aprendizagem, deixando de ter como meta principal que se promova a tomada de consciência de ser “aprendente”. 4. Qual seria uma “saída honrosa” para um trabalho que não engessasse e também não estivesse solto num livre jogo de associações? Estes aspectos (abaixo) contribuirão para o delineamento desta perspectiva de intervenção psicopedagógica. 4.1 - ”Saber lidar com as ofertas/propostas de trabalho”. AS ofertas/propostas são recursos para o desenvolver a percepção de si mesmo como aprendiz autônomo, autor, inovador. São instrumentos que também servem para o desenvolvimento e a utilização funcional de estrutura cognitiva. Caberá ao terapeuta saber utilizar-se com habilidade os instrumentos e tirar deles o máximo proveito em cada situação vivida com o cliente. Os recursos em si podem ter efeito terapêutico pelas características que se impõem e que se ajustam às necessidades do cliente. 4.2 - Vivenciar o “não-saber” como condição para o saber. Poder viver um processo de ensino/aprendizagem em que o terapeuta pode mostrar-se também no seu processo de aprender e no qual também esteja presente o “não-saber”, no sentido de que não tem resposta para tudo, e lidar com o erro no sentido construtivo e também como falta, no sentido de nossa incompletude, deve estar constantemente presente no processo interventivo. Vivenciar durante o tratamento estes dois aspectos certamente contribuirá para a constituição de um sujeito que aprende de forma autônoma, criativa e produtiva. Na ação terapêutica psicopedagógica existe um par que vive o ensinar e o aprender simultaneamente. Tanto o terapeuta como o paciente estão ensinando e aprendendo um com outro. Esta concepção contribui para que o terapeuta “afine sua escuta”, estando atento ao que seu cliente e a situação lhe ensinam. 4.3 - Experienciar o diálogo e o questionamento. No processo interventivo é fundamental o terapeuta desenvolver um estilo interrogatório que possa indicar ao aprendiz um caminho, embora mediado, para iniciar-se na habilidade de questionamento/perguntas, para conhecer a realidade. O estilo interrogatório utilizado na mediação beneficia o processo de construção conceitual. Este questionamento, se bem conduzido, promove uma posição mais ativa do aprendiz “como se faz a pergunta”, trata-se de fazer aflorar as razões pelas quais não se questiona. Quando questionada a criança ou o jovem, dificilmente consegue explicitar seu desconforto ou sua satisfação, pois, provavelmente, isso se deva a falta de investimento por parte do falante em sua reflexão, bem como, por parte do interlocutor, a falta de interesse em ouvi-lo. Portanto, às vezes, é o ambiente que não favorece a linguagem oral da criança. 4.4 - ”Produção” de uma cultura própria". Pela ação mediacional da intervenção psicopedagógica, deve-se ir oferecendo espaço para que o aprendente vá construindo “produções que tenham sua cara” e que consiga dar significados próprios àquelas que lhe são apresentadas pela cultura nos diferentes grupos que pertence. Esta produção pessoal será fundamental para desencadear a necessidade de sentir-se autônomo e a capacidade de criar algo que tenha sua marca pessoal, sua autoria. A construção da autonomia e da marca pessoal é fruto de uma relação mediada por outro, e esses outro/mediador deve estar em uma posição de relativo equilíbrio, isto é, ser presença na medida certa, pois o excesso pode provocar sufocamento e a ausência, abandono. A intensidade de mediação estará diretamente relacionada à percepção e leitura que o mediador/terapeuta poderá fazer a respeito da reciprocidade do aprendiz. 4.5 - Estimular a capacidade para estabelecer uma rede de relações. A capacidade de relacionar-se permitirá ao sujeito fazer leituras amplas e abstratas, portanto, ultrapassar o nível sensorial e concreto de percepção da realidade. Esta capacidade não é inata, ela nasce da relação com o outro e da necessidade de dar significados às questões relacionadas ao mundo interno e externo. Muitas crianças com dificuldades de aprendizagem não sentem necessidade de fazer relações. A terapia psicopedagógica pode ser oportunidade para que ele se incline à esta arte. Como consequência, o aprendiz terá maiores condições para construir uma aprendizagem significativa e operacional. 4.6 - Enfrentando o “pós-modernismo”. Promover experiências de processos e não de adotar o imediatismo, tão característico da sociedade pós-moderna, é também, uma das metas da intervenção psicopedagógica. A intervenção psicopedagógica pode, também, propiciar ao aprendiz, experiências em que ela adote uma postura “pendular”, postura esta usada pelo artista que ao distanciar-se da obra pode recuperá-la. É possível pensar que a intervenção psicopedagógica possa ser também um espaço que permita enfrentar as vicissitudes decorrentes da velocidade das transformações, a qual nem sempre favorece o contato mais profundo e consistente com a produção cultural e consigo mesmo. Autoria do resumo: Rafael Noronha. Referência Bibliográfica: Psicopedagogia: uma prática, diferentes estilos/organizadora Edith Rubinstein/vários autores – São Paulo : Casa do Psicólogo, 1999.

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